Na
Europa do século XIX muitos dos filósofos e cientistas em voga partilhavam do
clima filosófico e científico que convergiu para um modelo denominado
materialista. Esse modelo filosófico e científico proveio de influência direta dos
ideais Iluministas, que teve sua ascensão na França, na metade do século XVII,
e também do Positivismo de Auguste Comte, com seu apogeu na segunda metade do
século XIX (FARIA, 2003).
O
Iluminismo, que pretendia eliminar as
"trevas" do período medieval, tinha como objetivo a liberdade dos
homens e, por isso, se baseou nas ideias de grandes filósofos da época, como John
Locke, e a sua exposição sobre o Empirismo: para ele não interessavam as idéias
puras e sim abrir-se para a percepção – responsável por fornecer os elementos
necessários para a compreensão da realidade. John Locke atribuía, sobretudo, o
conhecimento à experiência mediante a observação da natureza (WONDRACEK, 2003).
Já René Descartes, teorizou sobre a exposição do problema mente-corpo, em que as
principais questões eram: como o espírito poderia agir sobre a matéria e como
os fatos da consciência poderiam agir sobre o organismo ou o organismo sobre os
fatos da consciência (FARIA, 2003).
A cadeia de filósofos do Iluminismo
também foi fortemente influenciada pelo materialismo dos pré-socráticos, como
Demócrito e Lucrécio, que explicavam os fatos do universo em termos físicos,
por meio da existência e natureza da matéria. Todas essas ideias foram
alinhadas, posteriormente, ao Positivismo de Auguste Comte que, sem qualquer
atributo teológico ou metafísico, tinha como premissa a busca pelas leis que regem os fenômenos e fatos naturais, unicamente por
meio da observação objetiva (FIGUEIREDO; SANTI, 2006).
Wondracek (2003) coloca que, no final do século XIX,
A ciência
passa a ser considerada como a única manifestação legítima de Infinito,
dando-lhe conotações quase religiosas, constituindo-se em alternativa às
religiões tradicionais, e em fundamento último das normas éticas. Como conseqüência,
todo sobrenatural, visto como oponente ao científico, é considerado inimigo do
humano e deve ser eliminado (p. 170).
Assim, os filósofos e os cientistas desenvolviam diversas
teorias que, consequentemente, colocavam em xeque o valor científico da época –
valores estes que sempre estiveram intrinsecamente ligados à teologia e à religião.
Inúmeros debates, confusões e exageros envolvendo
teólogos, filósofos e cientistas eram cada vez mais frequentes, pois, de um
lado, se defendia a origem de todos os seres humanos provenientes apenas de um
casal humano ou de alguma entidade divina e, do outro, admitia-se vários casais
humanos primordiais, como o fisiologista Carl Vogt, com sua obra Köhlerglaube
und Wissenschaft [Fé de carvoeiro e Ciência]; e a obra do médico Ludwig
Büchner, Kraft und Stoff [Força e Matéria], de 1853, que explana e expõe
a interação entre matéria e suas forças – esta última foi reproduzida em mais
de vinte edições e é considerada, até hoje, a bíblia dos
científico-materialistas. Para completar, 1859, seis anos após a publicação de
Büchner, Charles Darwin trouxe à tona sua obra On the Origin of Species [A
Origem das Espécies], que, embora muito bem quista pelos cientistas
materialistas, foi condenada por diversos filósofos e teólogos por desafiar a
interpretação da criação bíblica, pois trazia à tona a perspectiva de que o
homem apenas era um animal com um cérebro bem desenvolvido (KUNG, 2006).
Com
a ampla divulgação dessa série de publicações no cenário acadêmico científico, o
ateísmo na Europa se tornava cada vez maior. Na Alemanha a transformação
cultural por causa do embate científico-religioso era ainda mais evidente, pois
a reforma educacional que ocorrera no começo do século XIX, com base nas ideias
materialistas, permitia que os professores universitários escolhessem
livremente o tema e o método de como as matérias seriam abordadas e, assim, o
resultado dessa liberdade educacional permitiu a aplicação de diversos métodos
experimentais que possibilitou, em pouco espaço de tempo, uma impressionante
evolução da ciência moderna. Evolução esta que beneficiou principalmente a
Psicologia, que integrava dados de diversas áreas e que era conhecida por descrever
e mensurar as diferenças individuais. Por mais que população dos séculos
anteriores, XVII e XVIII, fosse assídua frequentadora de igrejas, depois dessas
publicações da segunda metade do século XIX, onde quer que se vasculhasse por
informações a respeito da ciência e da religião se encontraria “um vasto campo
de batalha, repleto de credos envelhecidos e modernas heresias, e animado pelos
heroicos frenesis de novas seitas” (GAY, 1992, p. 23).
Teólogos
e cientistas lutavam para demonstrar suas verdades. Andrew Dickson White – que
embora fosse cientista estava do lado dos teólogos – definiu que “o mundo
necessita é mais religião, e não menos; mais devoção à humanidade, e menos
pregação de dogmas”. (WHITE apud GAY,
1992, p. 32). Já John William Draper – um dos porta-vozes da ciência materialista
do século XIX e autor do livro History of
the Conflity between Religion and Science [História do Conflito entre
Religião e Ciência] – acalorou o conflito com a definição de que o Cristianismo
Romano e a Ciência têm seguidores absolutamente incompatíveis e, por isso “não
lhes é possível existir lado a lado. Um deve capitular diante do outro. A
humanidade tem que fazer sua escolha – não pode ter os dois.” (DRAPER apud GAY, 1992, p. 31).
O
cenário teológico e científico da Europa fervilhou com a publicação de obras de
contestação e, assim, ao final do século XIX, o cenário filosófico científico
convergia cada vez mais ao materialismo científico. E foi no cenário de disputa
entre Igreja e Ciência que nasceu Sigismund Schlomo Freud***. Essas lutas
constantes perduraram durante décadas. E elas foram observadas por Freud, não
com menos interesse, enquanto crescia, entrava na universidade, se estabelecia
como médico e começava a desenvolver a psicanálise (KUNG, 2006).
Mas
ele foi influenciado diretamente por todo esse cenário da época? É o que
veremos na próxima postagem a respeito do tema Psicanálise e Religião.
***
A grafia do nome de Freud foi alterado quando ele estava na faculdade.
REFERÊNCIAS
FARIA,
A. L. O materialismo na psicologia e na psicanálise. In: WONDRACEK, K.H.K. (Org.) O Futuro e a
Ilusão:
Um embate com Freud sobre Psicanálise e Religião. Petrópolis: Vozes, 2003. p.
94-110.
FIGUEIREDO,
L. C. M.; SANTI, P. L. R. Psicologia,
uma (nova) introdução; uma visão histórica da psicologia como ciência. 2ª
ed. São Paulo: EDUC, 2006.
GAY,
P. Um Judeu sem Deus: Freud, Ateísmo
e a Construção da Psicanálise. Rio de Janeiro: Imago, 1992.
KUNG,
H. Freud e a questão da religião.
Campinas: Versus Editora, 2006.
WONDRACEK,
K. H. K. Freud, Pfister e suas ilusões – Que ciência? Que religião? In: ______.
O Futuro e a Ilusão: Um embate com
Freud sobre Psicanálise e Religião. Petrópolis, RJ: Vozes, 2003. p. 167-200.